domingo, 25 de janeiro de 2009

Billy Blanco - Paulistana, Retrato de uma Cidade (1974)

Neste 25 de janeiro, comemoração dos 455 anos da cidade de São Paulo, reproduzimos abaixo a resenha originalmente publicada no Rate Your Music, de clássico álbum de Billy Blanco, uma das mais belas homenagens prestadas à maior cidade do Brasil. O texto é de 2007

Paulistana, Retrato de uma Cidade
Acredito que não passe um 25 de janeiro no qual não se ouça um coro afinado cantando: ‘São Paulo que amanhece trabalhando’. É o “Tema de São Paulo”, de Billy Blanco, letra e melodia que são o leitmotiv deste álbum conceitual. O outro tema desta ode é “Amanhecendo”, do qual muitos vão se lembrar por ser usado nas manhãs de uma famosa rádio noticiosa de São Paulo: entre uma mentira e outra, entre um comentário que flerta com o fascismo e uma entrevista com algum porta-voz da classe média chorona, entre uma reportagem tendenciosa e um dado contestável, pode-se ouvir o coro que entoa ‘começou um novo dia, já volta quem ia, o tempo é de chegar’; depois, em “O Tempo e a Hora”, ‘vombora, vombora, olha a hora, vombora’: bom ouvir isso direto do disco do Billy Blanco e não das ondas irradiadas por aqueles que abusam da concessão de um serviço público ofertado por toda a sociedade, bom ouvi-lo de uma obra produzida pela lenda Aloysio de Oliveira e não daqueles que se escondem por trás da covardia que denominam liberdade de imprensa. Aliás, amigos leitores, há uma frase de “O Tempo e a Hora” que diz, na bela voz da cantora Cláudia, que ‘o que vale é a versão, pouco interessa o fato’! Há algum freudiano aí?
E o disco fala, é claro, das coisas e das personagens de São Paulo: a carioca Elza Soares canta os imigrantes em “Capital do Tempo” e a tradição esportiva da cidade em “Pro Esporte”; Pery Ribeiro faz a “Louvação de Anchieta”, canta as “Coisas da Noite”, avança as fronteiras da cidade rumo à “Grande São Paulo” e via a “São Paulo Jovem” de então andar em duas rodas, com um rapaz guiando e uma moça na garupa, numa cena própria de um tempo em que a palavra motoboy seria um neologismo que causaria risos; a já citada Cláudia presta justiça a “Bartira”, aquela que Billy chama de índia-madre nas notas do disco; Miltinho, em “Viva o Camelô”, fala de uma figura folclórica, anterior à profissionalização do “bico” e de suas imbricações com o crime organizado; Claudette Soares nos mostra que o “Céu de São Paulo” já não era tão azul, mas que isso não importava para quem só tinha olhos para o asfalto; Nadinho da Ilha fala de uma das personagens mais conhecidas, amadas, cultuadas, desejadas e procuradas de São Paulo, a saber, “O Dinheiro”; e o coro manda ver numa irresistível levada rock para a “Rua Augusta” de Billy Blanco, que diferentemente da de Hervê Cordovil, não era espaço para a velocidade, mas para o caminhar leve, despreocupado, de moças olhando vitrines, enquanto eram admiradas nas suas roupas da moda.
Não deve ter sido à toa que o paraense Billy Blanco, para este disco produzido pelo carioca Aloysio de Oliveira, tenha convidado tantos artistas não nascidos em São Paulo: deve ter querido chamar a atenção para a idéia de cidade que tudo – e a todos - abraça. E o maestro Chiquinho de Moraes, na orquestração do álbum, valeu-se de características brasileiras numa linguagem universal, como sói acontecer com as coisas de São Paulo.
Agora, se me permitem, uma "provocaçãozinha": se eu me interessasse por política, diria apenas que o disco foi – a meu ver - por demais condescendente com nós paulistas, ao deixar de lado nosso conservadorismo e provincianismo, qualidades que, no mais, devem ser democraticamente respeitadas. Mas Billy Blanco talvez tenha até feito bem, pois para mim é muito triste lembrar que, por exemplo, Juscelino Kubitschek e Luiz Inácio Lula da Silva, dois dos presidentes mais populares da história do Brasil, dividem a nada honrosa pecha de serem os únicos que foram eleitos diretamente sem vencer em São Paulo. E olha que eu nem sou muito admirador de Juscelino... Mas São Paulo daquela feita preferiu Adhemar de Barros. Mais conservadora e provinciana impossível!
São Paulo, em 1974, ainda era a cidade das oportunidades, a cidade que mais crescia no mundo, ainda ostentava as características de city boom que mereceu chamada de capa da revista Time em 1952 (quando ainda era a segunda cidade do Brasil); em 1974, passados 20 anos, parecia que ainda não havia acordado da mística dos quatrocentos anos. E hoje, como seria a música de uma Paulistana 2007? Alguém aí se habilita?
São Paulo, 29 de abril de 2007.


Mais resenhas e informações deste álbum e de seus relançamentos, clique aqui.

Nenhum comentário: